Quando Shawn Mendes cancela a agenda, some por meses e reaparece tocando atabaque na Bahia com Ivete Sangalo, você sabe que algo diferente está acontecendo. Conheça o renascimento cultural que fez o mundo virar os olhos para o país.

Pátria amada e desejada

Se você abrir o Instagram, o TikTok ou qualquer outra mídia social, a probabilidade de topar com alguma celebridade global curtindo o Brasil é alta, o que não é coincidência. 

Os exemplos são muitos: Rosalía mergulhando na cena carioca, Dua Lipa lotando o MorumBIS no primeiro show da sua turnê Radical Optimism, Bruno Mars fazendo 15 apresentações em cinco cidades (e gravando um funk em português). Shakira, que escolheu o país para iniciar seu novo tour mundial, explicou: a nossa “terra adorada” abre as portas para a música dela desde os 18 anos, e não existe público igual, seja nas plateias ou nas redes sociais.

Porém, a influência não se estende apenas aos músicos. Kim Kardashian, Sarah Paulson, Naomi Watts e Niecy Nash aterrissaram no Rio para a turnê da série Tudo é Justo (Disney+) e foram direto para o Cristo Redentor. Além delas, o Príncipe William passou pelo Rio, foi à Ilha de Paquetá e seguiu para Belém para a COP30. Até Viola Davis, renomada atriz estadunidense, escolheu Salvador como sede da Ashé, sua produtora cultural.

A pergunta que fica é: o que explica esse súbito interesse?

Brazilcore: de tendência a referência

Para entender esse boom, é podemos citar o Brazilcore, movimento cultural e estético que colocou o verde, o amarelo e o azul no mapa global de uma forma que vai muito além da Copa do Mundo.

A tendência surgiu nas redes sociais no início dos anos 2020, inicialmente no universo da moda, com a ressignificação da camisa da seleção e de ícones como as sandálias Havaianas. Porém, há uma dimensão que muita gente desconhece: por aqui, ela nasceu como uma retomada consciente dos símbolos nacionais, que tinham sido apropriados por uma corrente política específica. Vestir as cores nacionais virou um ato de pertencimento, e essa autenticidade conquistou o exterior.

Internacionalmente, celebridades como Hailey Bieber, Emily Ratajkowski e Rosalía foram fotografadas com peças inspiradas no Brasil e ajudaram a catapultar o visual para o público global. 

Na Copenhagen Fashion Week de 2025, uma peça chamou atenção nas passarelas: as clássicas sandálias Havaianas, que estiveram entre os itens mais desejados globalmente no terceiro trimestre do ano passado, segundo o Lyst Index. Já a escola de samba Mangueira fechou o desfile da Chloé em Paris. Já a Farm Rio abriu lojas em Paris, Londres e Milão. 

Commodity pra nós, cool pra todo mundo.

Brazilissance: mudança de posição além da moda

Se o Brazilcore descreve a estética, o Brazilissance vai além: apresenta a virada de posição do Brasil no imaginário global. O termo nomeia o momento em que o país deixa de ser visto como referência exótica e passa a ser autor das próprias narrativas.

Contudo, é importante destacar que não é a primeira vez que o Brasil chama atenção do mundo. Nos anos 60, a Bossa Nova exportou um dos ativos mais poderosos do país: a música. Já nos anos 2000, as Havaianas dominaram o verão europeu, o funk de Tati Quebra-Barraco invadiu os clubs de Ibiza e Mykonos, e Naomi Campbell virou presença frequente em Trancoso. Na década seguinte, o país sediou a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

O que diferencia o momento atual é a consciência. O Brasil se apresenta com identidade própria, tão encantadora.

Para entender esse renascimento

1. Nova relação com a identidade

O maior letramento dos brasileiros sobre pluralidade e pertencimento nas últimas décadas é a base desse processo. 

Quando diferentes grupos passaram a ocupar centros de produção cultural e intelectual, as narrativas sobre o Brasil ficaram mais ricas, complexas e honestas. O “viralatismo” deu lugar ao orgulho, assim como o famoso “cachorro caramelo”, agora ícone da brasilidade.

2. Turismo em alta histórica

O país bateu o recorde histórico de visitantes estrangeiros em 2025: 9,3 milhões de turistas, um salto de 37% em relação ao ano anterior, acima das metas do Plano Nacional de Turismo. 

Isso não aconteceu por acaso: maior conectividade aérea, promoções internacionais e ações como o projeto Todo Mundo no Rio, que traz megashows anuais à capital fluminense, contribuíram para o resultado.

A revista Travel + Leisure nomeou o Brasil como destino do ano para 2026, enquanto o jornal The New York Times incluiu o Instituto Inhotim (MG) na lista das 52 melhores viagens do ano. O país se tornou o palco do mundo. 

3. Engajamento digital como soft power

A fanbase brasileira não é só grande, é estratégica, motivada e relevante. Posts de celebridades no Brasil viralizam, são remixados, repostados e transformados em trends. Quando Shawn Mendes publica um vídeo tocando atabaque ou Dua Lipa curte um show de pagode, o algoritmo multiplica as cenas e o mundo admira. 

No TikTok, coreografias de funk carioca são replicadas por criadores de conteúdo na Coreia do Sul, nos EUA e na Europa. O K-pop já abraçou o Brasil: Pabllo Vittar fez parceria com o grupo NMIXX, Anitta colaborou com o TXT, e rappers coreanos lançaram um álbum chamado Rio após turnê pelo país. 

4. Cinema e cultura de alto nível

Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, o primeiro da história do Brasil na categoria, enquanto Fernanda Torres foi indicada a Melhor Atriz. Caetano Veloso e Maria Bethânia levaram o Grammy de Melhor Álbum de Música Global (2026). No esporte, Rebeca Andrade subiu no pódio olímpico e ganhou ouro no solo (2024), enquanto Lucas Pinheiro conquistou o primeiro ouro olímpico de inverno do país (2026).

Em poucos anos, o Brasil acumulou uma lista de conquistas que nenhum departamento de marketing conseguiria planejar. E o mundo prestou atenção.

5. Moda que conta a própria história

A diferença entre o boom de vinte anos atrás e o de agora está em quem narra. Antes, o Brasil era reduzido a sol, samba e futebol pelo olhar de fora. Hoje, marcas como Misci, Farm Rio e Riachuelo contam a história da moda brasileira com pluralidade e autoria. O Sol de Janeiro, marca americana inspirada na beleza brasileira, construiu um império global vendendo essa narrativa, provando que o apelo cultural do Brasil ultrapassa as fronteiras do país.

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